Você lê na Bíblia que Deus fala: com Abraão, com Moisés, com Samuel ainda menino num templo escuro. E em algum canto por dentro algo pensa: mas comigo então? Ele também fala comigo, hoje, numa terça-feira à noite, comum? A resposta curta é sim. A resposta mais longa, sobre como Ele faz isso, como você reconhece, e o que faz com o que ouve, é o assunto deste guia.
Compreender a voz de Deus não é reservado para místicos ou "campeões espirituais". É vida cristã normal. Jesus mesmo diz, e quer dizer exatamente o que diz: As minhas ovelhas ouvem a minha voz. Sem trajeto de formação, sem qualificação de santidade. Apenas: ouvir.
Deus ainda fala hoje?
Sim. Deus ainda fala hoje. E nunca deixou de fazê-lo.
A carta aos Hebreus abre com uma frase impressionante:
"Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho." (Hebreus 1:1-2, ARC)
Esse tempo verbal diz algo. Falou-nos. Pelo Filho. É uma situação que continua até hoje. Cristo não cortou a linha de comunicação quando subiu. Ele a abriu. Pentecostes torna isso uma realidade compartilhada: o mesmo Espírito que repousava sobre Ele agora habita em você.
E há a promessa direta do próprio Jesus:
"As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem." (João 10:27, NVI)
É uma declaração de fato, não uma instrução. Jesus não diz: tente ouvir a minha voz, treine seu ouvido, esforce-se. Ele diz: as minhas ovelhas ouvem. Se você é Dele, já O ouve. Talvez ainda não reconheça sempre como sendo a voz Dele, mas isso é outra coisa, diferente de não ouvir.
Muita gente com quem converso fica travada na pergunta se Deus fala, enquanto Ele há muito está falando na vida delas. Procuram um trovão enquanto o Pai sussurra. Isso nos leva às maneiras como acontece.
Sete maneiras pelas quais Deus fala
Deus não está limitado a um único canal. Ele é criativo, pessoal, e se adapta à sua maneira de funcionar. Estas são sete das formas mais comuns pelas quais Ele fala.
1. Pela Bíblia. Essa é a base. Não porque seja a "mais segura", mas porque é onde Deus mais plenamente se expressou. Às vezes você lê uma passagem que já leu dez vezes antes, e de repente uma linha se acende, como se alguém apontasse uma lanterna ali. Esse momento, em que o logos (palavra escrita) se torna rhema (palavra viva e pessoal), é uma das maneiras mais clássicas pelas quais Deus fala.
2. Por impressões e pensamentos. Um pensamento que "soa diferente". Um nome que surge enquanto você ora por alguém. Uma direção que se forma sem você ter pensado nela. Paulo chama isso de "ser guiado pelo Espírito" (Romanos 8:14). Geralmente não parece sobrenatural. Parece com você mesmo, só que um pouco mais nítido. É exatamente por isso que tantas pessoas perdem: esperam uma voz externa e não reconhecem o sussurro interno.
3. Por outras pessoas. Às vezes uma palavra vem por meio de outra pessoa. Um amigo que diz algo sem saber o quanto aquilo cai bem. Um pastor cuja pregação parece ter sido escrita só para você. Um desconhecido que se aproxima com algo específico. Deus usa o corpo Dele para falar com você.
4. Por circunstâncias. Uma porta que se abre. Uma porta que se fecha. Uma conversa que vem exatamente no momento certo. Cuidado para não ler tudo como "um sinal", mas também não seja tão crítico a ponto de explicar todas as providências. Deus muitas vezes guia pelo que permite e pelo que impede.
5. Por sonhos. "Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne... os vossos velhos terão sonhos" (Joel 2). Sonhos são uma das formas mais antigas pelas quais Deus fala, e ainda acontecem. Nem todo sonho é um sonho de Deus (pizza também conta), mas se um sonho fica com você, parece carregar significado, ou te acorda de manhã com um pensamento específico: anote.
6. Por imagens e visões. Uma imagem que surge durante a oração. Uma figura interna que se forma enquanto você está diante de alguém. Não precisa ser "uma visão" com V maiúsculo. Normalmente é uma imagem interna calma, quase casual, que você consegue perceber se prestar atenção.
7. Por profecia. Alguém fala algo específico sobre você. Num culto, num grupo de oração, ou a sós. A profecia é para edificação, exortação e consolação (1 Coríntios 14:3), e basicamente é a voz de Deus chegando até você por meio de outra pessoa.
Esta não é uma lista exaustiva. Deus falou com Balaão por meio de uma jumenta. Ele também pode falar com você de um jeito que não cabe em nenhuma taxonomia teológica.
Como começar hoje: três passos
A teoria é boa, mas a voz de Deus você aprende a compreender praticando. Como você só reconhece a voz de um amigo depois de tê-lo ouvido falar cem vezes. Então aqui vão três passos concretos que dá para dar ainda esta noite.
Passo 1: Encontre um lugar tranquilo. Não a sala com a TV ligada ao fundo. Não com o celular ao alcance da mão. Uma cadeira, um canto no quintal, um espaço perto da janela. Dez minutos bastam. Elias não ouviu Deus no vento nem no fogo, mas no silêncio depois deles:
"O Senhor, porém, não estava no vento. E depois do vento um terremoto; mas também o Senhor não estava no terremoto. E depois do terremoto um fogo; porém também o Senhor não estava no fogo; e depois do fogo uma voz mansa e delicada." (1 Reis 19:11-12, ARC)
Uma voz mansa e delicada. Esse costuma ser o volume em que Deus fala. Não porque seja fraco, mas porque quer ser íntimo. Um Pai aos gritos não exige confiança, um que sussurra sim.
Passo 2: Faça uma pergunta simples. Não "qual é a sua vontade para toda a minha vida, Senhor?". Ninguém sai bem de uma pergunta dessas. Comece pequeno. "Pai, o que o Senhor quer me dizer hoje?" Ou: "Senhor, como o Senhor me vê neste momento?" Ou, ainda mais simples: "Fala, Senhor, que o teu servo ouve", literalmente a frase que Samuel aprendeu a pronunciar em 1 Samuel 3.
Faça a pergunta, e depois fique em silêncio. Sem buscar com força. Sem encher a cabeça com respostas que você quer. Apenas ouvindo.
Passo 3: Anote o que vier. Esse é o passo que a maioria das pessoas pula, e é o mais importante. Pegue um caderno, o celular, um aplicativo, qualquer coisa. E anote o que surgir. Uma palavra. Uma imagem. Uma frase. Uma sensação. Mesmo que pareça "isso é só eu mesmo".
Anotar faz duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, te desacelera e dá ao sussurro espaço para tomar forma. Segundo, ao longo do tempo constrói um arquivo onde você passa a ver padrões: temas que voltam, imagens que mais tarde fazem sentido, palavras que se cumprem. Esse arquivo é como você treina o ouvido. Criei o aplicativo Rhema+ exatamente para ajudar com isso, mas até um caderno barato funciona.
Comece com esses três passos. Por uma semana. Dez minutos por dia. Você vai se surpreender.
Como saber se é Deus ou se é você?
Essa é a pergunta que tira o sono. Como sei que não estou tomando meus próprios pensamentos pela voz de Deus? A resposta honesta: nem sempre dá para saber imediatamente com 100% de certeza. Mas há três testes confiáveis que ajudam ao longo do tempo a discernir.
Teste 1: Bate com o caráter Dele e com a Palavra Dele? Deus nunca fala em contradição com o que já disse na Bíblia. Se o que você ouve te humilha, te condena ou te empurra para um canto: atenção. O Pai não condena (Romanos 8:1). Pode corrigir, mas a correção Dele soa diferente de condenação. A voz Dele tem o cheiro de um bom Pai, não de um chefe severo.
Teste 2: Traz paz? Paulo escreve: "a paz de Cristo seja o juiz em seu coração" (Colossenses 3:15). O verbo "ser juiz" significa literalmente "arbitrar". A paz é seu árbitro interno. Se algo que você acha ter ouvido traz paz interior, mesmo que te desafie ou seja imprevisível, isso é um bom sinal. Se traz inquietação, pânico ou pressão, desconfie.
Teste 3: O seu espírito testemunha junto? Paulo chama isso de "o Espírito testifica com o nosso espírito" (Romanos 8:16). Há uma espécie de "sim" interno que sobe quando algo é realmente de Deus. É difícil de descrever, mas você reconhece quando está ali. Tem o gosto de chegar em casa.
E uma quarta verificação prática que quero passar adiante: pergunte a alguém. Não sobre tudo, mas em coisas grandes. Compartilhe com um cristão maduro em quem você confia. Os profetas no Novo Testamento atuavam em comunidade, justamente para pesarem uns aos outros (1 Coríntios 14:29). Você não precisa fazer isso sozinho.
"Deus raramente fala em generalidades. O que soa pessoal geralmente é para você." (Graham Cooke)
Obstáculos, e o que fazer com eles
A maior parte das pessoas não aprende a compreender a voz de Deus, não porque não tenham nascido para isso, mas porque esbarra em alguns obstáculos previsíveis. Aqui estão eles, e aqui está o que fazer.
Obstáculo 1: medo de errar. E se eu achar que é Deus e for só eu mesmo? E se eu conduzir outros para o caminho errado? Esse é quase sempre o maior bloqueio. A resposta está na identidade, não na técnica. Seu Pai sabe que você está aprendendo. Ele não espera que você acerte tudo no primeiro dia. No vocabulário de Bethel isso se chama risk and grace. Melhor ouvir cem vezes com cuidado e ser ajustado do que a vida toda ficar quieto e seguro. Deus é grande o bastante para corrigir seus erros. Você não precisa ser infalível para ouvir. Só precisa ser ensinável.
Obstáculo 2: vergonha. Fiz uma coisa que não devia ter feito, por que Deus ainda falaria comigo? Essa é a mentira que a serpente vende em cada geração. O Pai falou com Adão no jardim logo depois que ele se escondeu. Chamou Pedro de volta à beira-mar depois da negação. A vergonha sussurra que você não merece mais ouvir. O Evangelho responde: você é filho amado. Ponto. Ele não fala com você porque você produz; Ele fala porque é Pai.
Obstáculo 3: barulho demais. Sua vida é cheia: celular, trabalho, filhos, pensamentos atropelando uns aos outros. Deus muitas vezes fala no volume de um sussurro, e sussurro precisa de silêncio. Não é preciso passar três horas por dia num mosteiro. Mas dez minutos sem telas, uma vez por dia, já muda tudo.
Obstáculo 4: buscar com força demais. Algumas pessoas quase espremem a oração de tanto esforço. Tentam forçar Deus a dizer algo. Mas a voz Dele não vem do desempenho. Vem do relacionamento. Não "faça mais para ouvir", mas "descanse mais para receber". Ele quer ser ouvido mais do que você quer ouvir. Seu trabalho não é arrancar Dele. Seu trabalho é escutar.
O que fazer com o que você ouve?
Imagine: funciona. Você ouviu algo. Uma frase, uma imagem, uma impressão. E agora?
Passo um: anote. Imediatamente. Não amanhã, não "eu lembro depois". Palavras proféticas têm meia-vida curta na memória: em 48 horas, metade já se foi. Há um guia detalhado sobre guardar e testar uma palavra profética de forma bíblica, mas o essencial é registrar logo.
Passo dois: ore de volta sobre aquilo. Uma palavra de Deus não é um aviso, é um convite. Devolva em oração. Peça esclarecimento onde está vago. Celebre o que está claro. Batalhe com ela onde for preciso (1 Timóteo 1:18).
Passo três: registre padrões. Ao longo de semanas e meses você vai começar a ver coisas que ainda não vê. Uma imagem que volta. Um nome que aparece três vezes. Uma direção que se delineia. Esse enxergar só acontece se você mantém um diário. Existe um guia sobre como fazer isso na prática, e se gravar funciona melhor do que digitar para você, há também orientações sobre como gravar palavras proféticas pelo celular.
A diferença entre as pessoas que vão aprendendo a compreender cada vez melhor a voz de Deus e as que ano após ano ficam no mesmo nível está quase sempre aqui: as primeiras registram, as segundas não.
Conclusão: Ele quer ser ouvido mais do que você quer ouvir
Resume-se a isto: Deus não fala porque você busca bem o suficiente. Ele fala porque é Pai, e pais conversam com seus filhos. Compreender a voz de Deus não é uma técnica a conquistar, é uma relação na qual você é convidado a entrar. O ouvido se treina sozinho quando você começa a escutar.
Comece hoje. Dez minutos. Uma cadeira tranquila. Uma pergunta simples. E um lugar para anotar o que vier. Faça isso por uma semana. Depois duas. Daqui a um tempo você vai folhear para trás e pensar: olha, Ele falou aqui. E aqui. E aqui.
Você é uma ovelha de um bom Pastor. Você ouve a voz Dele. Talvez ainda não reconheça sempre, mas Ele há muito está falando. Só falta agora você começar a anotar o que ouve.
Então se você está nessa fase em que suspeita que Deus está falando com você e quer aprender a reconhecer quando isso acontece, pode ser valioso começar hoje a anotar o que ouve, vê ou sente nos momentos de silêncio. Porque só quando você registra é que mais tarde dá para ver padrões: imagens que voltam, palavras que se cumprem, temas para os quais Deus está te puxando. Esse arquivo é como você treina o ouvido, e essa é quase sempre a diferença entre quem aprende a compreender cada vez melhor a voz de Deus e quem ano após ano continua em dúvida.
Criei o aplicativo Rhema+ especificamente para isto: um lugar para suas palavras, sonhos e impressões, que ajuda a guardar e a enxergar as conexões. Soa como algo para você? Então pode baixar aqui.